Nem Amarelo Claro, Nem Nada.
Maio 5, 2008
- Onde vai ser? – Indagou sem esboçar qualquer sorriso.
- Na sala, se não tiver problemas pra você.
- O que houve com o quarto?
- Não houve. É que ele está desarrumado mesmo.
Ela colocou o cigarro nos lábios cor de rosa e mordeu a nicotina. Instigante. Aos poucos, despiu-se lentamente e, com um atrevimento bem vindo, bebeu o vinho tinto na taça de cristal, que estava firme na mão daquele homem embasbacado. Um gole rápido e certeiro, seguido de uma indagação letal.
- É português?
- Não, nacional mesmo. Mas, comprei na vendinha do Manoel, ali na esquina.
- Essa merda vai me dar dor de cabeça.
- Eu tenho aspirina.
Ela preferiu a carreira de cocaína para encarar a rotina e reclamou daquela música esquisita. Era jazz.
- Coloca um hip hop.
- Mas, é Quincy Jones…
-Isso não é estimulante.
- A gente pode fazer como o estilo da música e improvisar…
- Troca, ou desliga.
- Tudo bem…
O ritmo invadiu os poucos metros quadrados da sala e ela acendeu um balaio. O isqueiro ateou o fogo fingido, além da fumaça lenta que subia a cada tragada de desejo falso. Seios médios redondos, tal Marte. Os pentelhos, devidamente aparados, eram a tradução do perfeito delta de Vênus. Ele estava na lua. A sua frente, uma espaçonave perfeita para sair de órbita.
Ela gingou numa dança doida, exalando erotismo e perfume barato. Tudo bem ensaiado. A timidez esvaeceu após ele ficar nu, sem toda aquela inibição irritante. Ela escorregou a mão delicada pelas suas coxas. Ele tentou beijar-lhe a boca e ela desviou, bradando:
- Não faz isso! Não tratamos assim.
- Eu pago!
- O beijo é melhor do que uma trepada.
- Custa quanto?
Silêncio. Ela acendeu mais um cigarro, ajoelhou-se no chão, aos seus pés. Delirante. Um prazer surdo ecoou dentro dele. Excitação. Apostas e perdas que não deixam de insistir na absurda vontade de continuar errando. Coisa de homem só, diante de uma tela sem tinta, ou inspiração de primavera. Nem amarelo claro, nem nada. Lábios cor de rosa. Só três ou quatro posições novas e ejaculação rápida em alguns minutos vagos. Ela colocou seu vestido e estendeu-lhe a mão.
-Duzentos.
- Hã? Mas, nem beijo teve!
- Já falei, duzentos.
- Toma. Com mais cem, você fica?
- Não. Chega de inanição.
Ela tinha que ir para outro lugar. O tempo se esgotou, seu cliente já gozou. Nos trinta segundos anteriores, ele havia jurado que nunca a deixaria partir. Mesmo quando o vinho ficasse com o gosto coagulado de misericórdia. Ela escorregou porta a fora e o deixou com o cheiro de mofo. A saliva seca foi essencial para criar os nós em sua garganta. Não deu para suplicar promessas com o hálito amargo de um moribundo. Então ela partiu e tomou um táxi. Da janela, acompanhou o veículo dobrar a esquina e, novamente, ele ficou órfão na avenida de suas fantasias. Mendigo dos impulsos, dejeto de suas vontades. Pensou ronronando “Mas… o que será que tem naquele beijo?”. Olhou para taça e viu o rastro dos lábios impressos com a marca do batom. Encostou sua boca, lambeu a borda, tentou encontrar alguma resposta. Nada. Só um gosto invisível de suposições salpicadas com saliva.
“Puta é tudo igual”, ele murmurou. E achou, junto ao resquício-poeira da cocaína, um pequeno pedaço de papel rabiscado com batom: “O beijo é eclipse”. Ao franzir o cenho, mostrou que ainda não havia entendido. Normal. Porque isto é coisa que os homens só descobrem quando sabem que, o que há de melhor, sempre está perto demais para querer procurar.
Escrito por Bruno Cazonatti